Iniciativa da AMAD entregou mapeamento pioneiro sobre transtornos do neurodesenvolvimento, promoveu articulação intersetorial e reuniu comunidade em evento marcado por desfile, exposição e participação de famílias
Na véspera, um encontro exclusivo
com famílias abriu espaço para relatos sobre rotina, dificuldades de acesso ao
atendimento, incertezas diante de diagnósticos e a sobrecarga emocional vivida
por cuidadores. Esses depoimentos influenciaram as discussões técnicas do
seminário e reforçaram a necessidade de políticas integradas.
Durante os seis meses de
realização, o projeto promoveu oficinas de customização, rodas de conversa,
escutas ampliadas, visitas domiciliares e levantamentos em escolas e unidades
de saúde. Os dados foram sistematizados em um catálogo impresso, entregue ao
público no dia do seminário, reunindo informações sobre autismo, TDAH,
dislexia, atrasos no desenvolvimento e situações de sofrimento psíquico.
A psicóloga Elmina Ferreira,
responsável pela coordenação do diagnóstico, destacou que o território de
Açucena impôs um dos maiores desafios. “Chegar às famílias foi o maior
obstáculo. O município é extenso, com acesso difícil, e isso também é a
realidade delas: deslocamentos longos, cansativos e custosos para buscar
acompanhamento. Esse sofrimento apareceu em cada escuta. A demanda cresceu
muito e, para muitas famílias, chegar até a sede já é um desafio que não temos
como eliminar de imediato”, afirmou.
Elmina observa que o diagnóstico
revelou uma fragilidade ainda mais profunda: a falta de informação sobre os
transtornos e sobre como manejar comportamentos e intervenções. “O que o estudo
revelou de forma mais contundente é a desinformação: como lidar com o
transtorno, como intervir, como entender comportamentos atípicos. As pessoas
são subjetivas, e o adoecimento também é. Fechar diagnósticos é complexo. Por
isso, integrar Saúde, Educação e Assistência Social não é apenas importante — é
urgente.”
A psicopedagoga Salomé Nogueira
ressaltou o impacto emocional do processo. “Durante todo o trabalho, percebemos
algo muito simples e muito profundo: as pessoas queriam ser escutadas. Elas se
sentiram aliviadas ao falar. Muitas nunca tiveram voz ativa, nunca se
perceberam pertencentes. O projeto escancarou portas.” Ela destacou ainda a
formação de uma rede local de apoio. “Estamos tecendo parcerias. Um parceiro
hoje, outro amanhã. Isso nos anima e nos dá coragem para continuar. Saio do
seminário com ideias fervilhando. Acredito que podemos muito mais.”
O diagnóstico aponta que o TDAH é
atualmente o transtorno mais frequente entre crianças e adolescentes
acompanhados, superando inclusive os registros de autismo. A consolidação
desses dados permitirá a elaboração de estratégias específicas para cada área,
com fluxos mais claros e ações integradas.
Da esquerda para a direita: Salomé Nogueira (psicopedagoga), Márcia Rocha (da coordenação de responsabilidade social e institucional da Cenibra), Renata Silva (assistente social da AMAD) e Sammy Siman (presidente da AMAD)
Para Sammy Siman, presidente da
AMAD, o projeto inaugura uma nova fase da política de inclusão no município. “O
‘Conhecer para Incluir’ deixa um legado concreto. Agora sabemos onde estão as
crianças, quais são suas necessidades e como a rede pode atuar de forma
articulada. O diagnóstico não encerra o trabalho; ele inaugura o planejamento.
A avaliação é muito positiva porque conseguimos unir famílias, escolas,
unidades de saúde e a assistência social em torno do mesmo objetivo: garantir
direitos e construir políticas públicas mais humanas e mais eficazes.”
O seminário reforçou a importância da articulação intersetorial, da escuta qualificada e do uso de dados para orientar políticas públicas. A AMAD pretende expandir as ações em 2026, fortalecendo vínculos institucionais e ampliando a rede de apoio às famílias.
Leia também: