terça-feira, 19 de maio de 2026

Funcionária de aérea disse que queria matar Flávio Dino num voo do ministro



Em tempos de consolidação da extrema direita e de tensões políticas acirradas, o limite entre a divergência de opiniões e a ameaça velada à integridade física parece ter se dissolvido na rotina do país por conta da selvageria bolsonarista. Um episódio alarmante e emblemático desse cenário de ódio irracional veio à tona com um relato do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal. O magistrado revelou que uma funcionária de uma companhia aérea manifestou o desejo de matá-lo, direcionando a declaração hostil diretamente a um agente da Polícia Judicial que o acompanhava.

O caso, que expõe o nível de contaminação política que atinge prestadores de serviços essenciais, acendeu um alerta vermelho sobre a segurança de autoridades e do público em geral nos aeroportos brasileiros e em outros ambientes públicos.

Ocorrido no momento em que os procedimentos de embarque do ministro eram realizados, a funcionária da empresa aérea, ao identificar o nome de Flávio Dino no bilhete de passagem, não escondeu a sua contrariedade ideológica e, de forma impulsiva, verbalizou o ataque ao policial que fazia a segurança do integrante da Suprema Corte.

“Uma funcionária de uma empresa aérea, ao olhar um cartão de embarque com meu nome, manifestou a um agente de polícia judicial a vontade de me xingar. Em seguida se ‘corrigiu’: disse que seria melhor MATAR do que xingar. Como não a conheço, nem ela me conhece, é claro que tais manifestações derivam de minha atuação no STF“, relatou Dino.

A gravidade do ato reside no fato de partir de alguém encarregado de garantir o cumprimento de protocolos rígidos de aviação. Embora o ministro tenha optado por não expor a identidade da trabalhadora ou a bandeira da companhia aérea envolvida, ele enfatizou que o problema transcende a sua esfera estritamente individual.

Perigo coletivo: do café ao avião

A preocupação central levantada pelo ministro é o efeito cascata que esse tipo de fanatismo extremista pode gerar na segurança coletiva. Funcionários de companhias aéreas lidam diariamente com o controle de acessos, bagagens e aeronaves, setores onde o profissionalismo técnico rigoroso é a única barreira contra tragédias.

“Imaginemos que outros funcionários, da mesma ou outra empresa aérea, sejam contaminados com idêntico ódio. Isso pode significar até riscos para segurança de aeroportos e de voos e, por conseguinte, de outros passageiros”, advertiu o magistrado.

Para ilustrar o tamanho do risco em serviços cotidianos, Dino traçou um paralelo com o setor de alimentação: “Um cliente corre o risco de, por exemplo, ser envenenado?”, questionou, sublinhando o perigo de o cidadão comum ou a autoridade pública virar alvo de sabotagem ao consumir um produto ou serviço básico.


Apelo ao empresariado: Educação cívica em ano eleitoral

Diante do diagnóstico de uma sociedade adoecida pelo radicalismo, o ministro do STF evitou pedir punições sumárias e preferiu fazer um chamamento à responsabilidade social das corporações. Ele sugeriu que entidades empresariais tomem a frente e promovam projetos internos de conscientização para frear a violência política no ambiente de trabalho.

“O pedido que faço às empresas em geral, mas especialmente àquelas que lidam com o público, é que façam campanhas internas de EDUCAÇÃO CÍVICA para que todos possam conviver em PAZ, especialmente nesse ano eleitoral, em que muitos sentimentos se acirram”, alertou Flávio Dino.

O ministro ponderou que, embora o voto, as simpatias e as convicções partidárias sejam direitos individuais inalienáveis de todo cidadão, inclusive dos trabalhadores, o ambiente profissional de atendimento ao público exige neutralidade e civilidade. Ninguém pode ter o temor de sofrer violência física ou verbal ao interagir com uma marca.

“Pode ter sido um ‘caso isolado’. Porém, com o andar do calendário eleitoral, pode não ser. Então é melhor prevenir. Essa é a sugestão para as empresas e entidades empresariais: orientem e estimulem com campanhas educativas os seus prestadores de serviço a manter o respeito a todas as pessoas, independentemente de preferências, simpatias, opiniões. Será o melhor para a empresa e para os consumidores. Será o melhor para o Brasil”, concluiu o ministro, deixando uma necessária reflexão sobre os rumos da convivência democrática no país.