
Carta de renúncia foi entregue à mineradora cinco dias após empresa ter afirmado que convocaria uma assembleia extraordinária de acionistas para votar a destituição do vice-presidente
A Vale informou que o vice-presidente do seu Conselho de Administração, Marcelo Gasparino, renunciou ao cargo de conselheiro. Ele deixará o colegiado em 1º de agosto. A carta de renúncia foi enviada à empresa cinco dias após a mineradora ter afirmado que convocaria uma assembleia extraordinária de acionistas (AGE) para votar a destituição de Gasparino, sob alegação de que ele teria vazado informações confidenciais da companhia.
Por decisão do próprio Conselho, Gasparino também foi afastado do Comitê de Indicação e Governança e do Comitê de Pessoas e Remuneração.
Na semana passada, a Vale informou que a decisão de pedir a destituição de Gasparino aos acionistas havia sido tomada após uma investigação conduzida por um escritório externo independente, contratado por determinação do Conselho, segundo a qual o executivo foi responsável pelo vazamento de informações sigilosas relacionadas à reunião do colegiado realizada em 19 de junho.
Naquela reunião, o Conselho recomendou aos acionistas que rejeitassem a destituição de Daniel Stieler da presidência do colegiado, que havia sido solicitada pela Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil — depois de resistir ao movimento da Previ, Stieler acabou renunciando ao cargo de presidente do conselho em 6 de julho.
Na reunião de 19 de junho, antes portanto da renúncia de Stieler, Gasparino defendeu sua permanência no colegiado e divulgou voto em separado na ata do encontro.
Indisposições
Numa versão ampliada do voto, afirmou que Stieler informou os demais membros do colegiado sobre “fatos graves de que tomou conhecimento nos últimos anos”, como revelou o colunista do GLOBO Lauro Jardim.
A revelação do trecho do voto de Gasparino gerou indisposição, assim como o caso da avaliação, por alguns membros do conselho, de um possível negócio com a J&F, dos irmãos Batista, também revelado pelo colunista.
Além de defender a permanência de Stieler, Gasparino apresentou, na reunião de 19 de junho, sua candidatura para a presidência do Conselho, como concorrente de Manuel Oliveira, o Ollie, que era apoiado pela Previ. Assim como o voto em separado, o lançamento da candidatura foi um movimento de contraposição à posição da Previ.
Na AGE, realizada na semana passada em formato virtual, Ollie venceu Gasparino na votação e foi eleito presidente do Conselho de Administração da Vale. Ele tomou posse ontem.
Defesa na carta
Na carta de renúncia, Gasparino afirma que não houve divulgação de informação relevante não pública da mineradora.
“O que fiz foi encaminhar, de forma reservada, a um analista de mercado, parte do material que era de minha exclusiva autoria e que refletia minhas próprias opiniões e avaliações. Não houve divulgação de informação relevante não pública. Não houve intenção de obter qualquer vantagem, interferir na negociação de valores mobiliários ou expor manifestações confidenciais de outros administradores. Tampouco foi demonstrado qualquer prejuízo à Companhia ou aos seus acionistas em decorrência desse encaminhamento”, disse Gasparino na carta.
“Considero importante registrar perante o mercado que o compartilhamento, em caráter reservado, de um documento de minha exclusiva autoria não poderia ser confundido com vazamento de informação confidencial da Companhia”, complementa o executivo, acrescentando que sua “defesa jurídica será apresentada nas instâncias competentes”.
